27 de junho de 2010

Anjos sempre voltam ao Céu

A gente tem mania de achar que tudo é pra sempre. Mal do ser humano. Acha que não podemos perder o que conquistamos, quem conquistamos, que as pessoas não podem ir embora. Tudo é meu e ninguém vai tirar. Que mentira. A gente não tem nada. Malmente temos a nós mesmos.

Ontem deitei pra dormir e fiquei olhando o Céu pela janela. Não vi estrelas, nem lua. Entre as palhas do coqueiro, o céu encontrava-se quase que completamente encoberto de nuvens. E se tinha nuvens, tinha anjos por ali. Com certeza. Todos os dias anjos voltam ao Céu e a gente chora. Chora por achar que ele ficaria mais um pouco, chora por achar que foi cedo. Que noite mal dormida. Acordando algumas vezes pela madrugada, aquele céu de nuvens insistia em estar estacionado na minha janela. Quantos anjos estariam me olhando ali de cima? Nossa que angelical - mas na hora foi bem assustador. Parecia estar parada no tempo. Queria que o céu azul claro da manhã, logo chegasse. E sabia que essa noite teria mais um no céu.

Alguém chorava em um canto da cidade. Sem conseguir dormir. Sentindo falta, sentindo a perda. "Algumas pessoas acham que a vida nunca acaba..." - foi o que disse uma menina de 6 anos. Mas o que sabe sobre perdas uma criança? "Mãe tem pessoas que acham que a vida não acaba, mas a vida acaba, as pessoas envelhecem e pronto, morrem..."

Depois disso a gente para e pensa que por causa do apego sentimental a gente tem medo de perder as pessoas. E que é dificil pensar friamente - com escrito ao longo do texto. Mas que tudo vem e vai. O mundo dá muitas voltas. Nada é pra sempre e os anjos sempre voltam ao Céu. Somos turistas por aqui.
 
Esse texto é dedicado a alguém que ontem, ganhou um anjo no Céu. E outro na terra.

17 de junho de 2010

Se eu não tivesse perdido aquele Santa Cruz com certeza teria ouvido a explicação sobre a posição social e capital do Brasil de um rapaz (aparentemente um professor de sociologia) à dois meninos do Colégio Militar. Enquanto as duas pobres crianças discutiam sobre Copa do Mundo - o menor muito mais desenvolto com as palavras e explicações ao amigo - o rapaz chega perto e observa com um sorriso no rosto. "Engraçado como os grandes vencedores da Copa do Mundo são os países subdesenvoldidos." - Disse o garoto sabido ao seu amigo (levemente abestalhado). Então, não contente apenas em observar a conversa dos dois, o tal professor invade a conversa: "O Brasil é um país super desenvolvido, porém mal organizado e estruturado."

Sorriso sem graça do sabido. Sorriso maldoso do abestalhado (como quem diria: se lenhou sacana).
E o tal professor deu-se a falar. Praticamente uma aula de sociologia dentro do Ribeira / Pituba. Para a minha sorte - ou não, os meninos desceram no meio do caminho e lá estava eu, dando continuidade ao discurso do tal professor. Um papo bastante interessante, renderia até mais se eu não tivesse que descer no próximo ponto. Algumas vezes me soou um ar de sabichão do tal, mas bem que ele sabia do que estava falando.

Antes de descer: "Foi um prazer ouvir você, é o que tá faltando nos ônibus." - Eu e minha educação descontraída. Acredito que seja uma tendência conversas políticas dentro dos ônibus. Ontem mesmo peguei um  onde um Rastaman falava sobre Jesus, periferia, drogas e mães que tem os filhos brutalmente arrancados de seus braços. Ainda tinha um violão na mão. Muito bom.

Eu desci e disse: "êa Rasta!"
Quem não pega ônibus não tem história pra contar.

15 de junho de 2010

Invade e contagia

Trânsito parou. Tic tac. Péééén. Trânsito parado. Mas o jogo não é só às 15h30? BORA BRASIL! Todo mundo já acordou vestido de verde e amarelo. Parece que todo mundo resolveu sair cedo de casa, ir trabalhar de carro pra dar tempo de correr pro jogo quando o chefe liberar. A cidade está parada. A cidade está pintada. A cidade é verde e amarela. Verde das poucas árvores que a gente vê perdidas entre os prédios. Amarela dos raios de sol que insistem em ultrapassar as nuvens do tempo parcialmente nublado.

O espírito de Copa do Mundo invadiu a cidade, mas só hoje - primeiro jogo do Brasil - é que o povo despertou. Hoje todo mundo sai cedo e volta tarde. Mas hoje pode. Hoje tem Brasil. Impressionante como essa energia chega, invade e contagia. Calma, não é slogan de guaraná ou cerveja. Mas é que realmente, invade e contagia.

E vamo que vamo, como se diz por aí. Ou melhor: BORA BRASIL! BOOOORA! Vamos, gritem! Temos 90 minutos pra xingar, gritar, extravasar, tomar todas, rir, gritar mais, gritar de novo e agora mais alto, fazer "huuuuuu", abraçar alguém que você nunca viu na vida, sorrir, chorar, tremer, colocar o coração na boca, fazer o olho brilhar a cada lance, gritar "huuuuu" de novo! GRITAR GOL! Hoje é dia de Brasil.

Calma. O jogo começa apenas às 15h30. Mas o trânsito já parou.

E até as buzinas dos carros - as "vuvuzelas", benditas "vuvuzelas" - já me lembram que sim, hoje tem jogo do Brasil.

1 de junho de 2010

Eu não sou desse mundo.

Bendita hora que machuquei minhas asas e vim parar na Terra.
Até hoje não consegui descobrir qual minha missão nesse mundo. Desde então me envolvo em cada caso.
Só sei que realmente, não faço parte desse mundo. Aqui é tudo tão complicado. As pessoas parecem que precisam machucar as outras pra se realizarem. Qual a vantagem em ver o outro triste? Poder chegar depois, pedir desculpas e tentar convencer que foi um acidente? As palavras voam da boca da gente e quando a gente percebe, disse tudo. Eu tô ficando bem parecida com as pessoas que aqui habitam!


Eu realmente não quero fazer parte desse mundo. Ei meu rapaz, faça o favor de preparar meu passaporte de volta. Quero voltar agora. Ser anjo por aqui dá trabalho. Ser anjo me machuca. Tá bom, nem venha com suas broncas. Sei que não deveria me envolver com as pessoas desse mundo. Mas quem mandou me fazer anjo de carne e osso? 


Posso trocar a missão? Me leve pra guerra e me faça proteger quem estiver por lá. Acredite, tá mais seguro que ficar por aqui. Quero voar. Voar pra longe. Não me faça ficar seu moço. Tá vendo que não consigo mais dar conta de tudo e de todos? 


Quero pegar a próxima nuvem... e voltar pra casa.
Eu não sou desse mundo.