27 de janeiro de 2011

Somos 3. Dois. 1

Casar é tão bom, não é? Expectativa, ansiedade, planos e planos. Nunca casei. Mas ele vai casar sábado e só de pensar nisso me sobe ao mesmo tempo uma alegria e já uma saudade assim. Anos e anos se passaram e só agora é que percebo: ele vai embora. Enquanto tudo era uma brincadeira, era apenas mais uma. Depois virou compromisso sério. Namoro. Noivado. E ela deixou de ser mais uma pra ser: ela. Ela vai levar ele. Ou ele que irá levar ela? 

Somos três. Mas nos últimos meses temos sido constantemente só dois. Dois pra morar. Dois pra assistir TV. Dois pra dormir. Dois prar lavar - bem, na verdade apenas um pra lavar. O outro vem e reclama. Mas éramos mais nós dois. Acorda, trabalha, chega, padaria, tv e dorme. Era ele. Eu entrava aí entre uma reclamação e outra, entre uma risada e outra. 

"Vai ficar sozinha com a casa." - Imaginei seu rosto sorrindo ao escrever essa frase. Ele nunca me disse nada, mas talvez me conheça um pouco. E de que adianta a casa sozinha? As frases que eu mais ouvia serão trocadas por silêncio e computador:

- "Os pratos vão ficar na pia até quando?"
- "Quer ir ali no Travessa's comprar um aimpim pra gente não? Eu pago."
- "Assuvio." - já vaaai...
- "Deixa eu ver o que tá passando de bom na SKY..."
- "Vou acender a luz." (sendo que acendia enquanto falava)
- "Advinha o que tá passando na SKY?"

E assim por diante. 
Dirty Dancing, Grease, Top Gun, Rocky 1, 2, 3, 4, 5 (tem mais?)... Todos me lembrarão ele. Outro dia talvez lembre até outra pessoa. Mas primeiro, lembrarei logo dele. Adoniran Barbosa, Skank, Lambada, Roxette, Total Eclipse of the Heart, Lionel Ritchie, Kuduro... Será que ele sabe que tudo isso me faz lembrar dele? 

É verdade, a gente só sente falta quando perde. O outro disse que vou chorar. Acho que vou mesmo. Vou chorar. Acho que o três vão chorar. O tempo passa e a gente cresce. Lá se vai um, daqui a pouco o outro... e quem sabe até eu.

Ele vai casar. Mas continuaremos sendo nós três.

13 de janeiro de 2011

Dia de Branco

Você não vai não? Nove horas já! Levanta-se correndo e se arruma pra ver o Cortejo - é dia do Senhor do Bonfim. Ela já estava sentada na cadeira da sala, toda de branco, esperando mãe e filha pra poder ir. Isopor de um lado, cadeirinha do outro, sorriso no rosto e claro, dando pressa. O Cortejo já vai passar, veja os fogos. 

Era de branco que se ia. A ladeira da Água Brusca ficava movimentada com o sobe e desce dos devotos e dos ambulantes. O espaço já estava reservado e no muro instalava-se o isopor e a cadeirinha. Olhe, as baianas... "Ah eu vim de Ilha de Maré minha Senhora, pra fazer samba na lavagem do Bonfim..." todas em coro e regadas a agogô, atabaques, palmas, cachaça e os jarros com água pra lavar a Escadaria.

Lá vem ele todo de branco, beijo na testa, segue seu caminho. Vai até à Colina Sagrada, longa caminhada - só volta de noite, bem de noite. Agora é a vez dos jegues, completamente enfeitados divertindo a todos quando passava. Bira do Jegue. Zé do Jegue. João do Jegue. Tinha jegue pra todo mundo - e não é que esse ano conseguiram impedir os pobres dos jegues irem até a Colina Sagrada? 

Sei que era coisa de no máximo uma hora. Mas pense que era bom. Me fazia bem. Me faz bem apesar de não poder mais sentar no muro, com isopor e cadeirinha. Hoje tenho que certeza que ela está de branco. Hoje eu estou de branco. E entre o sagrado e o profano, meu pai Oxalá Senhor do Bonfim continua a nos proteger.

Festa do Bonfim traz lembranças. Dá saudades.

11 de janeiro de 2011

200 e 16 horas [ e uns quebrados ]

Que estranha sensação essa de dar liberdade e querer prender.

- Tudo bem, pode ir.
[ Por favor, fique ]
- Não podemos deixar a vida particular de lado.
[ Mas e nós? e a vida a dois? ]
- São apenas 2 fins de semana, passa rápido.
[ Que que eu vou fazer sozinha nessa cidade ]

Como é possível pensar em duas coisas ao mesmo tempo?
Querer e não querer. Deixar e não deixar. Estar feliz e ao mesmo tempo apreensiva. Sorriso. Seriedade. O olhar se perdeu naquele muro lá ao fundo e em um minuto sua imaginação fez o favor de mostrar todas as alegrias alheia. Dividindo esse minuto ela também fez o favor de mostrar você, sozinho e abandonado em casa. Imaginação é coisa louca. 

Como é possível pensar em duas coisas ao mesmo tempo?
Ver partindo. Ver chegando. Bem verdade que poderia ser pior. Quem sabe Paris (dita com deboche de biquinho - párrí) ao invés do caloroso Rio de Janeiro (com deboche também - Riu di Xanêêêiro)? Muito pior. Tudo bem, pode ir. É sério. Sobrevive-se. Vá e me deixe só aqui, na também calorosa cidade do Salvador (dita sem deboche e com todas as letras S-A-L-V-A-D-O-R).

Como é possível pensar em duas coisas ao mesmo tempo?
Dúvidas a parte, impossível perceber o grande sorriso e o brilho nas olhos ao pronunciar: RIO DE JANEIRO. Dá até pra brincar: Rio de Janeiro (Sorriso) - Rio de Janeiro (Sorriso). E pra que melhor que um sorriso? Sorriso sincero e ansioso. Nem um pouco acanhado. Por um lado, me faz bem ao vê-lo. É possível? Claro que sim. Felicidade também é pra ser dividida. E somada. Quer saber?

Quem sabe não te vejo no Riu di Xanêêêiro?